7/7/2008
A TV Digital, recém-implantada em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, nasceu capenga e sem o Ginga, nome dado à tecnologia de interatividade desenvolvida pela inteligência brasileira. A afirmação é de Mauro Oliveira, 52, pesquisador e ex-secretário do Ministério das Comunicações
A refinaria não é o principal projeto de desenvolvimento do governo Cid Gomes (PSB). Segundo o cientista Mauro Oliveira, doutor em Tecnologia da Informação (TI) pela Universidade Paris VI, o Dragão Digital é a oportunidade que o Ceará tem de mudar cenários sociais, sair de um atraso histórico no mundo da informática e de abocanhar uma fatia maior de um mercado de 35 bilhões de dólares na área de TI. Ele alerta que a lógica não é binária e excludente. A refinaria e o Dragão podem ser tocados em paralelo, desde que sejam política de Estado e não de um governo.
Idéias a mil, olhar aguçado, cálculos e uma lousa na Redação são suportes para encorpar o discurso de um dom Quixote em Mauro Oliveira. O Dragão Digital, enxerga, leva algumas vantagens em relação à refinaria esperada quando se fala em tendências. Segundo o pesquisador, hoje, qualquer prospecção de reinvenção das cidades/cidadania não pode deixar de fora a TI. "Isso para falar do óbvio. Mas, vejam, o Dragão é uma tecnologia limpa, não depende de seca ou inverno e é mais universal do que uma estação de refino. Penso que o próprio governo ainda não percebeu isso", observa.
O Ceará, alerta Mauro Oliveira, já deveria ter seu Porto Digital a exemplo do que fez Pernambuco há 15 anos, quando decidiu iniciar a formação de doutores e mão-de-obra para o irremediável campo da Tecnologia da Informação. Além disso, Recife não "é besta" e, diferentemente de Fortaleza, tem outro olhar quando o assunto é atração de investidores que trabalham com informática. "Há uma empresa de Fortaleza, que tem uma filial lá, que sozinha pagou para a capital pernambucana mais ISS (Imposto sobre Serviços) do que todas as que atuam no Ceará. Aqui é 5%, lá é 2%", constata.
A seguir, confira a conversa que O POVO dividiu com Mauro Oliveira, ex-secretário do Ministério das Comunicações do governo Lula, e um dos cientistas cearenses que conceberam o modelo híbrido de TV Digital que se propõe veículo da inclusão digital no Brasil.
O POVO - Por que a inclusão digital no Brasil acontece às avessas? No caso da TV digital, por exemplo, não era para começar por Tocantins em vez de São Paulo, Rio e Belo Horizonte?
Mauro Oliveira - O que foi lançado em São Paulo é uma TV digital que não foi sonhada pelo modelo brasileiro. Se você pegar o decreto 5.820, o primeiro parágrafo diz: O Brasil resolve criar o modelo digital com objetivos sociais. Isso é fundamental. E nisso você tem de dar um mérito ao governo Lula. O governo anterior, mais liberal, ia decidir entre os modelos japonês, norte-americano e europeu. Ia se ter uma TV digital como se tem celular. Nós temos 120 milhões de celulares no país e o Brasil ganha zero do ponto de vista do conhecimento que está embutido. Toda a tecnologia está na Nokia que era uma fábrica de papel higiênico e foi transformada em uma fábrica de ponta.
Não existe inteligência brasileira no celular. Evidentemente que existem ações, Pernambuco fabrica os joguinhos. A UFC também faz alguma coisa. Mas o que eu quero dizer é que 99, 9% são ligados ao conhecimento e não tem nada a ver com o Brasil. Então, para a TV digital, o governo Lula convocou 1.500 pesquisadores. O Ceará liderado pelo Fernando Carvalho, atual presidente da Etice (Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará). Tinha também o Cefet, a UFC, Unifor e o Instituto Atlântico. É uma ignorância dizer que o Brasil escolheu o modelo japonês. O modelo brasileiro é híbrido a exemplo dos aviões da Embraer. O modelo tem outras camadas e o Brasil tem a contribuição que é o Ginga, que é uma interface entre as aplicações e o modelo japonês. A TV digital não é TV, é um computador dentro de casa. Tudo que fizer agora é software e tendo o Ginga como interface, não se precisa pedir autorização aos japoneses nem se pagará royalties. Essa TV lançada em São Paulo foi lançada sem o Ginga.
OP - Os que são as camadas da TV digital do Brasil?
Mauro Oliveira - São cinco camadas. As três mais importantes são a de baixo, que é a japonesa. É a parte da modulação, a parte física, o hardware. É a parte de sinais: transmissão, modulação e recepção. A parte do meio é brasileira, que é a interface que permite as aplicações. É um sistema operacional. Houve uma pressão muito grande para esse modelo sair, não fossem os cearenses não teria um modelo dessa maneira. Um artigo do coitado do Celso Ming escreve, em setembro de 2004, a "TV de Policarpo Quaresma". Na hora que o Celso Ming diz que o Brasil estava reinventado a roda, que nós éramos incompetentes e que isso ia ser a reinvenção do Pal-M, rapaz, ele quase obrigava o ministro (das Comunicações Eunício Oliveira, na época) a encerrar a TV digital. Os pesquisadores que foram chamados para fazer a TV digital brasileira ligaram pra mim e disseram que os cientistas estavam dizendo que fariam um boicote. De um lado, a imprensa mal informada ou servindo a interesses dizia que aquilo ia ser a repetição do Pal-M. Não tinha nada a ver o Pal-M, era a mudança de preto e branco para cor. A mudança de TV para computador não poderia ser comparada com o Pal-M, é de uma ignorância muito grande. Nesse momento fui para a Bahia, porque estava havendo um congresso lá, para me reunir com os pesquisadores. E digo: ’rapaz, vocês estão fazendo o jogo do mercado!’. Eu perguntei sobre o que estava errado. Daí, vi a ingenuidade dos cientistas brasileiros. Eles disseram que as especificações estavam erradas. Chamei todos para Campinas, para o CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações), para que apontassem os erros. Vamos mudar. Quando eu disse isso, eliminei o boicote. Eu também achava que tinha gente infiltrada nesse grupo. Consultei na época um grupo de segurança de Estado e perguntei se aquilo era coincidência. E me disseram que toda empresa norte-americana possuía um departamento para fazer essas ações em países subdesenvolvidos.
OP - Havia mesmo a pressão das empresas estrangeiras?
Mauro Oliveira - A pressão foi tão grande que chamei o doutor Ozíres Silva (então presidente da Embraer) para dar uma palestra no Ministério. E ele me perguntou o que ele tinha a ver com TV digital se o negócio dele era avião. Eu disse: ’doutor Ozires, o senhor que botou no ar um avião da Embraer deve ter sofrido os mesmos problemas que estamos enfrentando no Ministério das Comunicações´. Eu queria mostrar que temos competência na área de tecnologia da informação (TI). A Universidade Federal de Pernambuco, para não falar do Ceará, o departamento deles é melhor do que a universidade onde eu fiz meu doutorado na França (Paris VI). O Brasil, hoje, tem competência ao ponto do tal do Ginga ser reconhecido mais lá fora do que internamente. É um problema a questão da auto-estima brasileira. Eu fiz uma provocação no Congresso Cearense de jornalistas (ocorrido no fim de semana passado, em Fortaleza). Perguntei se sabiam que o helicóptero foi inventado no Ceará. Ninguém sabia! Pedia que eles entrassem na Internet e colocassem Antonio Justa/Pacatuba. Foi inventado no Ceará, o inventor não tinha dinheiro e um sueco fez um protótipo e mudou lá alguma coisa. Por uma questão de ética citou o Antonio Justa. Temos um problema de auto-estima. Somos sempre menos.
OP - Onde está a falha?
Mauro Oliveira - Houve um amadurecimento na ciência e tecnologia no Brasil, houve um amadurecimento na academia. Eu mesmo, minhas cinco primeiras teses que orientei não serviram pra nada. Era para o cara terminar. Não havia reverberação na sociedade. Olhe, o Norte e Nordeste - em particular o Ceará - são grandes beneficiários com a Lei de Informática. A lei obriga as empresas de telecomunicações do País a investir em pesquisa e desenvolvimento em TI. A menos que queira pagar imposto. Sabe o que acontece no Ceará? Hoje as empresas do Sul do Brasil investem muito mais no Ceará do que obriga a lei. Por que? Porque eles foram obrigados a vir aqui. O que tem de pequeno e microempresa que trabalha no mercado cearense em rastreamento, por exemplo, não é brincadeira. Existem mais de dez só com rastreamento eletrônico com soluções locais. Nos últimos cinco anos houve um salto impressionante.
OP - Qual o motivo de Pernambuco ser mais avançado?
Mauro Oliveira - Eles criaram um doutorado 15 anos antes do nosso. Isso deu um diferencial muito grande. Por causa disso, eles têm no Recife um Porto Digital que é referência. Nós estamos correndo atrás. Quando estive na secretaria (foi secretário-adjunto da Ciência e Tecnologia do Ceará até abril de 2008) chegamos a bolar o Dragão Digital. É um esforço cearense para contrapor a questão do Porto Digital. Só para mostrar a importância disso, existe um mercado de 35 bilhões de dólares, que hoje é dominado pela Índia, que é um mercado off-shore. É aquele aquele mercado que as grandes empresas procuram lugares que você tenha mão-de-obra mais em conta. Não é só negócio de arremedo, é programação mesmo, de ponta. A Índia tem hoje 46% desse mercado. Segundo estudos, hoje o Brasil éo 16º desse mercado. Tem uma empresa cearense chamada I-Factoring, quatro meninos, participam desse mercado. Eles têm 50 garotos, cinco deles nos Estados Unidos. Fiquei impressionado. Eles fazem programação para empresas. São empresas que pagam por programadores de outros mercados. O programador dos EUA é mais caro do que o da Índia, que é mais caro que o do Brasil. Qual a grande oportunidade para o Ceará? Esse mercado de 35 bilhões de dólares cresce 20% ao ano. Nada no mundo cresce nesse índice. Esse mercado está vindo para o Brasil e em 2015 a previsão é que o Brasil esteja em quarto lugar. Em 2015 vai ser a Índia, EUA, China e Brasil...
OP - Ele está migrando para o Brasil porque a mão-de-obra é barata?
Mauro Oliveira - O barato é relativo. Do ponto de vista ideológico, é meio complicado entender.
OP - Mas o padrão China de comparação como o grande modelo de desenvolvimento mundial embute uma mão-de-obra escravizada e produtos de qualidade duvidosa.
Mauro Oliveira - Concordo contigo. Mas a China trabalha também com um mercado de qualidade. As coisas não são binárias. A China tem grande investimento agora na área de recursos humanos. No mercado está faltando programador e os EUA estão se instalando em países como a Índia. Dos 35 bilhões de dólares, a Índia fatura 16 bilhões.
OP - Como o Ceará vai se preparar para ter uma fatia maior desse mercado?
Mauro Oliveira - Se esse mercado está vindo para o Brasil e como tudo nesse país é proporcional ao PIB, tudo irá para São Paulo. A menos que façamos alguma coisa. Nesse campo, temos que tirar o chapéu para os pernambucanos. Só uma empresa do Centro de Estudos Avançados de Sistema do Recife tem 675 programadores que poderiam estar em São Paulo ou EUA. Só que existe uma política de Estado para mantê-los lá. Aqui faltam, hoje, mil programadores seniores. Mas ainda há chance. O Ceará tem uma oportunidade histórica de mexer no seu PIB. Qual seria a lógica? São cinco camadas no Dragão Digital. Primeiro formamos o cinturão digital que está prometendo este ano atender 82% do território habitado. Ele vai fazer com que o acesso à Internet seja abrangente. Vou dizer uma coisa (risos): o setor primário não vai fazer a grande mudança desse Estado. Sabe qual a grande mudança nesse Estado? É a área de TI. O que a Nokia fez? Ela fabricava papel higiênico!
OP - A gente está atrasado quantos anos em relação a Tecnologia da Informação?
Mauro Oliveira - Deixa eu explicar o Dragão Digital (vai para a lousa e desenha um esquema). Ele é uma estratégia pra gente tirar o atraso desse Estado. E aí vai uma crítica à universidade que demorou 15 anos para mal começar. Tem mais: há uma empresa daqui, que tem uma filial no Porto Digital em Pernambuco, que o ISS (Imposto Sobre Serviços) que ela paga para o Recife é maior do que pagam todas as empresas em Fortaleza. Há mais de um ano que eu digo para a Prefeitura que Fortaleza é a única capital que o ISS para TI é 5%. O Dragão Digital, se implementado, mudará a realidade do Ceará. São cinco camadas integradas e complementares. A primeira é o cinturão digital, que está na Secitece (Secretaria da Ciência e Tecnologia do Ceará). Depois o E-Jovem. Qual a idéia do E-Jovem? Cada ano você pega jovens que saem da escola pública e não têm nada pra fazer, são candidatos a serem marginais. Chame-os para uma coisa que gostam de fazer e ganhem dinheiro. A idéia é colocá-los em contato, principalmente, com duas linguagens que todo filho de gente rica tem, inglês e informática. O E-Jovem vai preparar uma base de 200 mil jovens. Nem todos têm competência para ser programador, mas com inglês e informática aumenta-se a empregabilidade de qualquer pessoa. Na terceira camada, a Secitece vai treinar 2 mil programadores seniores - jovens que terminaram universidades. Isso para 2008. No item 4, o Tarcísio Pequeno da Funcap (presidente da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico) tem bolsas para doutores nas empresas de TI. E finalmente a quinta etapa vem com a Adece (Agência de Desenvolvimento do Ceará) em atração de investimentos também para essa área. O Dragão Digital é uma rede e a consolidação dele é uma mordida segura nesse mercado de TI.
OP - O cinturão digital já existe?
Mauro Oliveira - Onde existe a linha da Chesf já existe. Uma faixa de 3 mil quilômetros está sendo licitada. Então, não tem volta. Eu estive com o Fernando Carvalho na semana passada. Um terço já existe e dois terços estão sendo comprados. O Ceará vai ter quase a universalização da Internet em breve, nem o governo está valorizando isso. Hoje a Telemar monopoliza o acesso à Internet no Ceará. Com o cinturão digital você não dependerá mais da Telemar. Hoje Tauá paga por acesso à Internet com a fibra ótica, ela não será mais refém de uma tarifa da Telemar. O cinturão é a conectividade. Na minha opinião, o maior projeto deste ano do governo Cid é o cinturão digital. Embora o governo não saiba disso. Como as coisas não são excludentes, o Dragão Digital é mais importante que a refinaria. O Dragão é a integração da conectividade mais a cultura da inclusão digital, mais recursos humanos, mais a inteligência na Funcap e investimento com os empresários.
OP - O E-Jovem tem alguma matriz no Pirambu Digital?
Mauro Oliveira - Ele é inspirado no Pirambu. Ele é um sucesso, a meninada lá ganha dinheiro. Lá temos 30 jovens e através deles fazemos circular, indiretamente, outros jovens. Só no cursinho temos 70 jovens. No inglês têm mais 100 e no reforço escolar existem mais 100. No projeto Bila tem outro tanto. Uma hora de biblioteca dá direito a uma hora de lan house. Então circulam cerca de 500 pessoas, por dia, nesse espaço. O Pirambu Digital é uma empresa. Esse projeto consegue uma coisa que nem o governador nem a prefeita conseguem, que é "decretar" que a partir de amanhã determinada rua vai ter dignidade. No entanto, esses meninos mudaram isso. Antigamente os empresários tinham medo de ir lá, deixavam o carro no Marina Hotel. Hoje, como eles empregam pessoas na Aldeota, as pessoas vão lá. Esses meninos resgataram a dignidade da rua Nossa Senhora das Graças. Aqui faço uma crítica à universidade e outras instituições que aldeotizam o jovem. Eles não dão chance aos jovens de perceberem que têm uma relação afetiva com o bairro. Qual é a grande vantagem do Pirambu Digital? E eu confesso que não foi feito planejado, aconteceu. Esses meninos são garotos de sucesso que poderiam estar espalhados na Aldeota, morando até fora, mas que por conta de uma oportunidade são felizes e se realizam onde nasceram. Eles são referências no bairro, eles são os caras. Quantas vezes no Cefet eu tirei talentos do bairro? Ele tem de entender que é capaz de mudar o bairro.
OP - O que eles produzem lá?
Mauro Oliveira - São softwares para as mais diversas empresas. Como nasceu o Pirambu? Eu estava na direção do Cefet, apareceu um executivo da LG (empresa coreana) para investir em pesquisa no Ceará. Eu disse ’mister Kim, a lei permite que em vez de fazer pesquisa você pode formar jovens’. Ele topou formar 120 garotos do Pirambu. Ele vinha informado que o Cefet teria de fazer concurso mesmo com o dinheiro trazido por ele. E acabaria entrando jovens de toda parte, mesmo do Pirambu. Fiz o seguinte, em vez de abrir inscrições da sede do Cefet (na avenida 13 de Maio), transferi para o Pirambu. Dessa vez, usei o estigma do Pirambu. Dos mil candidatos, 990 eram de lá. Quando eu voltei do Ministério das Comunicações, perguntei se eles topavam fazer uma cooperativa. A partir dessas experiências, criei no Cefet uma cadeira no curso que exige que o estudante faça um projeto para o bairro onde mora.
OP - Apesar da inclusão digital, o mundo digital é excludente?
Mauro Oliveira - Eu escrevi um artigo há uns dez anos, quando eu voltava do doutorado, dizendo que a Internet poderá passar como a tecnologia mais malvada que já apareceu. Exatamente por causa da capacidade de excluir, se não for um país democrático. Em 2003, a Unesco soltou o seguinte relatório: ’O mundo ficou mais pobre dada a concentração de renda e um dos responsáveis por isso é a Internet’. Imagine aula de matemática sem quadro? Ensinar MMC ou MDC só no papo? A educação sem Tecnologia da Informação já era. Os ricos fornecem os mecanismos que são determinantes para o sucesso dos filhos. Volto a dizer: inglês e informática todo filho de gente rica tem mais do que o normal.
OP - Nem a escola particular nem a pública conseguiram ainda ir além do simples uso de laboratórios de informática?
Mauro Oliveira - Não basta apenas ter o acesso à Internet. Há de se ter acesso com informação decodificada. Agora, sem a Internet é pior ainda. Se você tivesse a universalização da Internet na escola pública, eu poderia tentar corrigir as coisas. Mas corrigir uma coisa sem ter uma estrutura, é de lascar. É como no Interior que não existe um ônibus para chegar lá. Olhe, existem muitas escolas em Fortaleza que usam muito bem a Internet, podem melhorar. Quem tem grandes pedagogos tem grandes projetos. Lá no Cefet, em 1987, quando quis botar computador, as pessoas me chamavam de doido e criticavam: ’Como é que ele quer colocar computador se falta giz?’. Esse pensamento ainda continua, mas a universalização da Internet não pode se prender a esse pensamento atrasado.
OP - Você critica o atraso de jornalistas em relação a Tecnologia da Informação?
Mauro Oliveira - Eu não matricularia minha filha num curso de Comunicação que não tivesse a disciplina de Políticas de Comunicação. É um absurdo que ele trabalhe nessa área e não saiba de coisas que mexem com o futuro do País. Ninguém sabe o que é o Fust (Fundo de Universalização do Serviço de Telecomunicações). E não é só o Fust, a própria TV digital, que mexe com a estrutura do Brasil.
OP - E em São Paulo saiu a TV digital antes do modelo previsto?
Mauro Oliveira - São Paulo saiu sem o Ginga, é o que eles chamam de Zaper. Nossa grande frustração foi essa. ’Se a sociedade tivesse participado...´ Por que não saiu o Ginga no decreto que instituiu a via digital USB-DVD terrestre? Porque a sociedade brasileira estava completamente alheia a esse debate. O FNDC (Fundo Nacional pela Democratização da Comunicação) foi uma das poucas vozes atuantes, na época estávamos no Ministério. Para o Ginga acontecer, depende da participação popular e de gente séria no governo. Esse sonho de transformar os 95% de brasileiros com acesso a Internet não é certeza. Era para ser o grande sonho nosso. A TV Digital, no decreto anterior a esse, dizia que o Brasil só investiu uma grana para fazer TV digital porque queria fazer isso. Mas vai acontecer? Ninguém sabe de nada. A universidade, se você fizer uma enquete, não sabe nada de TV digital, quando a TV Digital deveria ser o grande sonho de inclusão digital deste país.
OP - Se vão sair 94 milhões de televisões nos lares e esses 94 milhões se transformarão em computadores, isso não é inclusão? Você deixa a porta aberta para isso.
Mauro Oliveira - Falta oportunidade. Falta que a sociedade saiba.
OP - Essa discussão ficou só entre os cientistas? Mas quando se fala em mundo digital, ainda parece ser uma coisa distante, muitos têm medo de se aproximar. O professor Luis-Sérgio Santos dizia para fazer texto. Todo mundo tinha medo. Ele dizia: "estou botando para vocês o desafio da página em branco". É a mesma coisa com o computador.
Mauro Oliveira - Se você perguntar a principal auto-crítica que faço do tempo que passei no ministério, era para termos feito de tudo para esse negócio chegar na sociedade. Tinha que ter uma campanha de governo, coisa séria para veicular.
OP - O governo também não compreendia ou tinha intenção de manter isso assim?
Mauro Oliveira - Sabemos que tem gente bem intencionada no governo, senão aquilo explodia. Se nós não capitulamos na TV digital é porque tinha gente comprometida, apesar das pressões, das dificuldades. A gente não fez o ideal. O que seria? Se eu fosse começar hoje no ministério, a primeira coisa que faria seria ir ao MEC, é o caminho mais fácil para se chegar nas universidades. Dizer que tem uma coisa acontecendo, que mexe na inclusão digital, na economia do país, na cultura da gente, mexe na democratização dos meios de comunicação. Mexe em tudo. A questão da canalização é pouco discutida. Um canal analógico suporta seis canais digitais. E aí, vou ficar com os mesmos ou o país deve ter uma política de democratizar os meios de comunicação? Quem está discutindo isso? Na verdade, os próprios meios de comunicação, as operadoras, nunca tiveram interesse em divulgar a TV digital. Você tem um garoto assistindo à Xuxa - ainda tem Xuxa na TV? -, entrou a propaganda, ficou chato, ele pula para um desenho, um You Tube. É outro modelo.
OP - E houve um episódio no Congresso dos Jornalistas, no debate, sobre essa sua reclamação de que os jornalistas não estão se informando sobre o novo modelo de telecomunicação?
Mauro Oliveira - E digo que se fosse escolher uma faculdade de comunicação para minha filha, escolheria uma que na grade curricular tivesse uma disciplina de políticas de comunicação. O rapaz veio perguntar (no Congresso) e eu disse que não queria ser grosseiro, que a pergunta tinha um erro de conceito. Ele disse que o sistema japonês tinha atrapalhado a questão dos seis canais. Eu pedi desculpas, mas transformar um canal analógico em seis canais digitais é mudança de tecnologia, não tem nada a ver com japonês. Era um erro de conceito dele. Ele deve ter lido umas duas coisas. Não dá para aprender em apenas uma palestra. Tinha que ter uma disciplina que falasse de políticas de telecomunicações. Isso mexe com a vida das pessoas em seu aspecto democrático, cultural. Mas tinha que ser disciplina obrigatória. O FUST é um dinheiro que vai afetar a vida de muita gente. São R$ 6 bilhões. Aí pergunto: os prefeitos estão preparados? A sociedade? Não sabem nem o que é o FUST.
OP - Mas qual a parcela de culpa das universidades, das instituições de pesquisa, em não democratizar essa informação?
Mauro Oliveira - Aí, nesse caso, temos que assumir a cumplicidade. Acho que as instituições de formação têm parcela de culpa quando esse debate não é trazido. Acho que os meios de comunicação, na medida em que isso não ocupa lugar de destaque. Acho que o governo também. Em vez de se procurar um culpado, é uma questão cultural. Se você conversar com um francês, ele é muito mais preocupado com essas coisas que mexem no bolso dele do que a gente. Estamos melhorando. Apesar dessa minha angústia quando falo do FUST, comparado há cinco ou dez anos estamos bem melhor.
PERFIL
Antônio Mauro Barbosa de Oliveira nasceu em Fortaleza em 20 de setembro de 1954. Em 1973, formou-se em Eletrotécnica pela antiga Escola Técnica Federal do Ceará, atual Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) - onde chegou a ser coordenador. Graduou-se em Licenciatura para Ensino de 1º e 2º Graus (UFC-1976) e em Engenharia Elétrica (UFC-1982), mas seguiu-se pelos caminhos da Informática desde a especialização (Pierre et Marie Curie/Paris VI - 1990). Fez o Mestrado (PUC-1987) e o Doutorado (Pierre et Marie Curie/Paris VI-1993) também na área. Em 2004, concluiu o Pós-doutorado em Telecomunicações pela King´s College (Londres). Foi secretário-adjunto de Ciência e Tecnologia do Ceará de janeiro de 2007 até abril deste ano. Saiu para voltar a coordenar o projeto Cefet-Pirambu Digital. É pai de Karol, Carolina e Carina. E de vez em quando escreve poesias e crônicas.
NOTINHAS
- Entre 2004 e 2005, Mauro Oliveira foi secretário Nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. Foi nessa época que atuou na empreitada de criação do modelo brasileiro próprio para a TV digital.
- A experiência muito bem sucedida do projeto Cefet/Pirambu Digital está sendo estendida para a comunidade do Titanzinho. A idéia é uma cooperativa de jovens que desenvolvem softwares, criam renda e formam aprendizes. O Sebrae está negociando com o Cefet a possibilidade de estender a proposta para todo o Ceará.
- Em abril deste ano, Mauro Oliveira lançou mais um livro, Céu Acima, de poesias. Eis um trecho: "Somos o que somos, o que andamos fazendo. Somos o que temos, o muito que construímos. Somos o que faremos, o pouco do que não seremos. Somos como somos. Somos o nosso mais. Não existe nosso menos. Só o céu acima. É assim que somos".
- Mauro usou a lousa branca da sala da redação, onde foi concedida a entrevista, para explicar ponto a ponto e tecer loas ao projeto Dragão Digital. Desenhou e explicou cada fase da proposta. "Isso aqui é a melhor coisa do governo Cid. Melhor que a refinaria".
- O projeto Dragão Digital envolve: 1) a instalação de cabeamento digital por todo o Ceará; 2) formação dirigida de jovens para as áreas de Inglês e Informática; 3) aperfeiçoamento de programadores seniores saídos da universidade; 4) concessão de bolsas de doutorado para pesquisadores; e 5) atração de investimentos nacionais e internacionais através da Agência de Desenvolvimento do Ceará (Adece).
Demitri Túlio e Cláudio Ribeiro
da Redação
FONTE: O Povo