Meus amigos,
Tive acesso a esse texto maravilhoso - com o qual concordo em gênero, número e grau - através de minha cunhada, Vânia Maia, o qual gostaria de compartilhar com vocês.
O texto intitulado Uma palmadinha não dói? é de autoria da jornalista e terapeuta reichiana Cláudia Rodrigues e foi extraído de seu blog Buena Leche.
Segue abaixo o texto na íntegra.
Boa leitura!
Uma palmadinha não dói?
Dói. Tapinhas ou as tais famosas palmadas educativas doem. A dor não é só física, é a dor da humilhação, de um tipo de humilhação sem saída. O adulto é fisicamente muito maior do que a criança. Ela pode gritar, chorar, espernear, até teimar e repetir o feito que causou a palmada, mas verdadeiramente ela não encontra uma solução que a faça compreender esse grau de agressão. Apanhar é animicamente intolerável. Apanhar emburrece o gatinho e o cachorro, por que deveria desenvolver inteligência nos filhotes humanos?
É colocado um fim na questão relacional entre a criança e o adulto e fica muito claro que era um jogo e que nesse jogo existe sempre um mesmo ganhador e um mesmo perdedor. A palmada submete, humilha, enraivece a criança e deixa inscrições corporais que determinam certos traços de comportamento. O corpo que apanha tenderá a desenvolver características masoquistas e esse padrão, também por tendência, deverá se repetir quando a criança que apanhou tiver filhos. Bater é um hábito social, mas acima de tudo é familiar, protegido pelas famílias que costumam defender a agressão como método de educação. São exceções os casos de reparação. Quem apanhou traz a raiva de ter apanhado e precisa trabalhar-se muito para não repetir o padrão.
Não faltam frases: “se apanhar em casa não apanhará na rua”, pau que nasce torto morre torto”, “é de menino que se torce o pepino” entre outras pérolas. A única verdade sobre as palmadas é que o adulto está descontrolado, sente raiva da criança ou descarrega nela, por ser mais frágil, suas tensões em outras questões.
A palmada faz mal ao adulto, que depois sente culpa e procura agradar, muitas vezes exageradamente, realimentando a relação sadomasoquista. E faz mal à criança, que se vê presa nesse tipo, às vezes único, de atenção.
A criança arteira, engraçadinha, que literalmente sobe pelas paredes e foi ensinada a se conter apenas por meio de repressão, vai encontrar saída como? Na adolescência vem a conta e se não vem em palavrões, batidas de porta, notas baixas e outras formas de devolver as agressões sofridas, se internalizará em inadequações pela vida adulta.
Bater é assumir o tratamento escravagista com os próprios filhos, é partir do princípio que a punição é a melhor escola para ensinar, para orientar. De fato é submeter às crianças a uma vida subinteligente, é não crer que a criança entre 0 e 5 anos á mais sensorial do que cortical, voltada para um prazer egóico, que se desconstrói naturalmente por meio de raciocínios simples.
Uma criança que nunca apanhou e sentiu-se compreendida em seus ataques e “bobeiras” infantis, chegará aos 5 anos sem qualquer necessidade de dar piti. Entenda-se que compreender aqui não se refere a fazer tudo o que a criança quer, mas esperar pacientemente que ela aprenda a lidar com a frustração, segurando no peito a própria dor de ver um filho querer e não poder levar o docinho, o carrinho ou outro inho qualquer. É acima de tudo respeitar o direito da criança de frustrar-se expressando suas frustrações como ela é capaz naquele momento de seu desenvolvimento.
O adulto, por raciocinar de maneira complexa, julga que a criança entende muito bem aquilo que lhe convém. É de rir, é para rir, é assim mesmo, é o cérebro dela em formação. Com paciência, repetindo 190 vezes a mesma coisa, o bebê de 2 anos vai entender o sentido do “não” e ele próprio vai experienciar os seus “nãos”, eventualmente em ataques de birra.
Mas o adulto que bate não entende que um bebê tenha o direito de expressar o “não” feito uma macaquinho. Ele bate, reprime e proíbe o “não” infantil, deixando claro que o único “não” possível é dele, o “não” do adulto. Depois sofre por ter sido hostil e dá os regalos refazendo o ciclo que só pode ser apelidado de deseducação. A criança fica confusa e acaba entendendo a punição como um prêmio ou uma prova pela qual tem que passar para ter tudo o que quer.
A proposta do adulto que bate é sempre muito óbvia.
Você me provoca, eu finjo que não vejo, finjo que você não tem cérebro, só porque sei que seu cérebro é ainda limitado, só porque sei que você depende de mim para sobreviver e então, quando me cansar da brincadeira eu bato em você e te mostro quem tem poder.
Investe-se numa relação agressiva, recheada de desprezo pela criança e depois espera-se colher que flores na relação com os adolescentes e filhos adultos?
Não dá para falar de paz se investimos em violência.
Autora do texto: Cláudia Rodrigues.
Endereço do texto: http://buenaleche-buenaleche.blogspot.com/2009/09/existe-palmada-educativa.html
terça-feira, 27 de julho de 2010
Assinar:
Comentários (Atom)
